Fevereiro 9, 2009

Já entendo certas gravuras

mas não sei quem embaralha,

que anverso tem a medalha

cujo verso é minha figura.

 

Na outra face da lua

dormem os números do mapa

brinco de encontrar nessas cartas

o que cegamente me inclua.

 

De tanta alegre insensatez

nasce a areia da passagem

para o relógio do que amei,

mas não sei se é mão dada

pelo anjo ou pelo acaso,

se estou jogando ou sou as cartas.

 

[ O grande jogo. Julio Cortázar]

Agosto 7, 2008

Não, isso não é verdade

Tenho um dragão que mora comigo.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço – seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha – felizmente indecifrável – lucidez daquele dia.

Estou me confundindo, estou me dispersando.

O guardanapo, a frase, a mancha, o medo – isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora – as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.

Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.

Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.

Ainda não comecei.

Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.

[ caio fernando abreu - presente da julia presente]

Agosto 5, 2008

Dançar é pensar com a alma

Dançamos descaminhados por onde nascem as mais infindas esperanças. Dançar é equilibrar-se em si com estilo próprio de sentir. É conteúdo em movimento, forma em crise. Pensamento em depressão de existência porque dançar é muito mais gostoso, menos dolorido. Dançar é pensar com a alma, percorrer cada nota vital.
 
As dores do mundo e da falta de entendimento do que é temporal, fantástico e irreal são farpas no pé. Não por desvirtuarem o caminho, mas por mostrarem o fim do túnel que inebria e grita dentro. 
 
Não entendo nada e sigo despreocupada. Isso me cansa. 

(. . . )

 Seja lá o significado disso. Tudo é vazio, nada de signos, mas muitas estrelas, as que eu tenho dó, da ‘com-paixão’. Sabe?

Agosto 4, 2008

Ter ou não ter namorado

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar.

Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

 

[ Artur da Távola]

Julho 22, 2008

O que não somos e gostaríamos de ser

O que somos agora.

Do que seremos ao mar, ao amar, ao pular

Em precipício com peripécia, algarismo e ar

Vontade e falta de ar, alegria em par.

Mesmo quando o passo que leva para o futuro tropeça

No descompasso que afoga no passado

Passado está atrasado e nós estamos de volta.

O grito do por que será. Do que será no grito de salvação

Daquela que resolveu mudar de nome

Avante, Amante!  Horizonte, Salvação, Canção também costumavam ser Liberdade.

Junho 30, 2008

De corpo alma e televisão

De frio calor e sol-verão

Eles me verão

De mímica química dúvida e paixão

O tempo embevece o amor desvanece -  o amor que embevece  o tempo que desvanece.

Junho 25, 2008

Futuro da retina sem pretérito

Estive lúcida como a ausência de um pensamento bom. E o passar das horas ficou como beijos e sorrisos pra cima de mim, por cima de tudo. Por cima do futuro do pretérito.

E tudo soa como se eu nunca tivesse enxergado o que me canta. O que me chama. A vista que é só minha e que me separa das coisas distantes, que eu nunca tive, nem pude imaginar. Elas me sublimam.

 O que me tira o sono e que nunca foi meu. Está lá distante. Bobagem. As minhas cotidianas de anos atrás não trazem mais nada. Do inverno do meu coração de papel, deslumbrado com tanto. Bem que o querer * queria ser ser * bem que poderia , mas não seria.

Queria o sossego de nada pensar. Queria ter tempo pra isso. Não queria sentir tanta vida, tantas vidas. Queria sentir meu corpo deitado na realidade. Queria refletir real nos olhos e me enxergar de longe lá no fundo, no fundo da retina.

Junho 16, 2008

Delicatessen

 

Fumaça na parede

Suave, leve desenho

Leve, leve tão leve!

 

Leve a beleza simples

[Do carinho acordado]

Da cegueira do papel em branco

 Da nudez da falta de letra

[Do nosso excesso, só nosso]

Da nota do céu, devota no véu

No tom dos poemas

 

Na palma das coisas. . .

Deixa e Demora

De mim pra você: Delicatessen

Junho 13, 2008

Deixa disso camarada

Revoga e governa
auto-reino
auto-retrato
auto – novo ato
novato
Renova no Reno
Retórica reta
Reto Rica
Reco-reco
 
reage
reescreve, crê. vê
inscreve em mim seu sorriso
inscreveo incrível, descrente carente
 
vem indecente e sente
vem ser gente
 
vazia, leiga , nova
novágua de beber
ardente gente de ser
serena

Junho 6, 2008

Palavra anacrônica

 

As maiores revoluções acontecem em silêncio. Deixar legado cultural para as próximas gerações é a forma silenciosa e mais humana de perpetuar o que passou e dar ênfase à mudança.  Registrar os feitos descobertas e as experiências através das palavras, mesmo que elas tenham que ser decifradas no futuro. Assim como os genes que serão decodificados e usados de alguma maneira para o avanço da medicina e da humanidade, as palavras têm o poder de revolucionar sem agredir o corpo.  Revolucionar o tédio de viver, impedir as mazelas das guerras, evitar as crises individuais e coletivas. Ou por mera perpetuação de ideologia.

Embates ferrenhos entre homens de guerra são ações próprias de animais que não entendem, não souberam, ou não puderam aproveitar o poder de uma palavra. A ausência da palavra é incapacidade de enxergar além. Ler a vida é ver o que há além dos fatos cotidianos, do mundo em que os pés, somente os pés estão fincados. É figurar o que é invisível através do visível. A falta de história e exemplos é a forma mais fácil de dominar o homem raso, sem consciência do próprio passado.

Para o filósofo Michel Foucault, os discursos devem ser tratados como conjunto de acontecimentos. Repertórios. Eles possuem uma materialidade, se consistem na relação, coexistência, dispersão, acaso, recorte, como efeito de uma difusão material. Sendo assim, os discursos criam realidade, transformam e recriam o mundo. Eles não são feitos para que se acredite neles, mas para obedecer e fazer obedecer. Para dominar. As maiores ideologias são aquelas que não precisam de morte, não precisam de armas para se sustentar. Para ele, o poder reprime e produz efeitos de verdade e saber, constituindo verdades, práticas e subjetividades.

Na idade média os livros eram vistos como subversivos, coisa de bruxaria, magia. Mudar o mundo pelas palavras, abrir janelas com a ficção é proporcionar novas perspectivas. É mostrar a invisibilidade do que é palpável. Isso parece magia aos olhos dos que não vestem e não vivem personagens contadas, histórias registradas em palavras. Trocar palavras é tentar tocar alguém, de alguma maneira. A linguagem é um dos artifícios humanos para manter relações. Sejam de desejo, de poder, a bel prazer.

E o passar do tempo angustia, o tédio de ser esquecido é como não ser visto por alguém. Morrer sem deixar um resquício da própria vida no mundo é viver em vão. É reafirmar a insignificância de ser diante da finitude humana. É dar espaço à guerra, à barbárie, de quem não soube ou não pôde construir a própria razão através da imaginação.